sábado, 31 de maio de 2014

A construção do imaginário sobre a resistência à ditadura civil militar brasileira e o lugar dos atores: dilemas vivos e assombrosos

Texto originalmente escrito para o Dossiê 50 anos do golpe da Universidade Nômade.

O legado da ditadura ainda é forte entre as populações marginalizadas e vulnerabilizadas pela paz do capital, apesar das mobilizações e lutas sociais dos anos 1970 e 1980, com o novo sindicalismo, os “novos movimentos” e a condensação das lutas ao redor da fundação do PT. A luta pela memória é atual.

Colégio Sion, 1980. Foto: Juca Martins.
A perspectiva que reina há décadas na historiografia e nas ciências sociais brasileiras, de forma vulgar e resumida, pode assim ser esquematizada: a resistência à ditadura civil militar brasileira teve diversas frentes, pacíficas, armadas e institucionais, que culminaram numa espécie de efervescência da sociedade civil nos anos de 1980. Esta nos apresentou novos atores sociais, novos sindicalismos, e novas formas de organização social, levando  ao processo de democratização, materializado pela constituição de 1988. Essa constituição foi adjetivada de “cidadã”, expressão essa que demarca claramente o olhar enviesado sobre o imaginário do período e os valores em disputa.
Os novos atores sociais e o novo sindicalismo (que culminou na fundação do Partido dos Trabalhadores), para além da existência real desses atores como “novos”, têm grande relação com a tentativa de construir uma vitória sociológica sobre a tese do “populismo”. Ou seja, com a tentativa de demonstrar como supostamente tais setores em ascensão foram capazes de eliminar as contradições de seus similares em períodos passados, superando o atrelamento ao estado, a convivência paternal com o chefe de estado, a aceitação da suposta tutela, e a ausência de um dinamismo marcado pela origem rural de seus membros.

O meu museu

“Guerra de mamona no Museu”! O grito empolgado de um dos nossos colegas era o sinal: corríamos todos para o parque do Museu Mariano Procópio. Formávamos nossas equipes, recolhíamos as mamonas nas camisas e fazíamos nossas trincheiras imaginárias.

Geralmente em outubro as jabuticabeiras do parque ficavam carregadas e lá íamos, em turbas de moleques, saborear as frutas.  “Mas cuidado com o guardinha!” Existia entre nós a sensação de que pegar as frutinhas era algo proibido, o que dava ainda mais sabor ao feito.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Por que ativistas e intelectuais reagem tão mal quando são questionados em situações de machismo, homofobia ou racismo?

Ativistas e intelectuais “progressistas” tendem a entender que sua atuação lhes confere certo capital social e político que os protege de seus próprios erros...


A situação que envolveu o professor  Paulo Ghiraldelli Jr., que há quatro anos leciona na UFRRJ, ao longo dos últimos dias tem um caráter emblemático. Durante uma palestra na  I Semana Acadêmica de Filosofia da UFRRJ o professor sofreu um “escracho”. Trata-se de uma espécie de tática de manifestação em que jovens expõem alguém a uma situação intensa de protesto, decorrente de alguma posição política, geralmente ligada a intolerância, discriminação e violência. As razões do “escracho” ao filósofo se justificaram pelo suposto comportamento machista, homofóbico e até racista, que segundo alunos e alunas se materializava em piadas nas aulas e também em textos, como por exemplo, uma recente coluna intitulada “Diante da mulher nua, pergunto se é “friboi”?.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Democracia sem multidão?

Foto: Mídia NINJA
A grande novidade do processo que vivemos é a possibilidade da multidão nas ruas, dentro de um processo de interação crítica do “velho” com o “novo” construir uma experiência de poder constituinte.  Poder constituinte aqui tratado “como expansão revolucionária da capacidade humana de construir a história, como ato  de inovação e, portanto, como procedimento absoluto”(Negri).

O “velho” se traduz nas bandeiras transformadoras da modernidade, muitas ainda não concluídas. O “novo” se refere ao sentido e sentimento da multidão de combate ao biopoder e de resposta a crise de “anacronismo” de algumas instituições.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

"Transformar nossa carne em novas formas de vida" - notas sobre SP e o Brasil

Foto: Mídia NINJA

“Multidão é o conceito de uma potência. Somente analisando a cooperação podemos, com efeito, descobrir que o todo de singularidades produz além da medida. Esta potência não deseja apenas se expandir, mas, acima de tudo,quer se corporificar: a carne da multidão quer se consubstanciar no corpo do General Intellect. (...) Tal como a carne, a multidão é pura potência, ela é a força não formada da vida, um elemento do ser. Como a carne, a multidão também se orienta para a plenitude da vida. O monstro revolucionário chamado multidão que surge no final da modernidade busca continuamente transformar nossa carne em novas formas de vida” (Antonio Negri - Para uma definição ontológica da Multidão).

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Às vezes é preciso “desestatizar” o coração – mas sem perder a "razão"

“Quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade” (Guimarães Rosa – GS:V)


Foto: Mídia NINJA
Se um famoso filme difundiu a frase “todo coração é uma célula revolucionária”, sinto me a vontade para dizer que, obstante o lirismo da frase, creio que o coração muitas vezes é uma “célula de conforto”.  Em matéria de política, muitas vezes, intuitivamente tendemos a resistir quando o tema é uma reflexão mais abrangente. Mas isso está longe de ser “natural”, é histórico, claro.

O meu coração guarda grande apreço pela figura de Fernando Haddad. Foi um bom ministro da educação, fez uma bela campanha em busca da prefeitura de São Paulo, e já prefeito, nos primeiros meses se comportou de forma digna e coerente em muitos momentos.

Historicamente, meu coração guarda grande apreço pelos movimentos sociais e pelas lutas populares brasileiras. Elas são parte da minha vida e história.

O movimento que ecoa nas ruas de São Paulo tem gerado um debate acirrado e muitas vezes, a meu ver equivocado, entre  diversos corações de São Paulo e do Brasil.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Um domingo com Monarco e a renovação de votos do samba





"Pra ver, se não me falha a memória
No livro da nossa história tem conquistas a valer
Juro que não posso me lembrar
Se for falar da Portela, hoje não vou terminar(...)"


Enquanto eu tomava uma Brahma no Bar Rainha – no malabarismo de acompanhar duas partidas de futebol pela TV ao mesmo tempo – pensava no compromisso que eu teria em algumas horas. Domingo, dia 19 de maio de 2013, reservava a mim e a tantas outras pessoas um dia histórico no samba de Juiz de Fora e por que não do Brasil. Mas eu bebia minhas Brahmas sem nem imaginar que a experiência para o qual já estava ansioso seria ainda mais brilhante.